na imagem, “Maria: substantivo feminina. Mãe: nome próprio” de Madu Peruzzo.
Este texto veio do convite para escrever sobre alguma exposição recente. O convite expirou, muito por excessos meus também, mas o texto já existe; parece seguro torná-lo público! Para contextualizar, a edição/coluna em que seria instalado abordará a presença das mídias sociais na formatação da cena artística, ou o virtual como esfera de efetivações, ou algo nesta linha. Tomei, então, o digital como travessa para a cidade.
Pois, do início: entre 09 de agosto e 09 de setembro de 2025 ocorreu a exposição Rituais do Feminino na Galeria Múltiplo, com Gui Zrenner como curadore. A exposição surgiu pela parceria da galeria com o projeto Mulheres Arquivadas — idealizado por Zrenner —, manuseando a discussão sobre as possibilidades de interpretação e inferências acerca do que é instituído como “feminino”.
Apesar de recente, parece cabível dizer que a exposição, que contou com as artistas Calisto Galilei, Desthais, Emanuelle Moraes, Heloisa Panuci, Iara Maica, Luísa Covolan, Luisa Lopes, Madu Peruzzo, Magu Bistafa, Vaguelis Silva, Victoria Dupré, Victoria Velazquez e Yasmin Domingos, tratou de fixar um pouco mais novas caras na cena curitibana; entre as 13 artistas, seus multímodos formativos e fluxos para pensar o fazer artístico-feminino, é indica uma investigação sobre como se pretende fazer arte na cidade por vias não-institucionalizadas — marginais, independentes, autogeridas.
Anunciar artistas é também avalizá-las. Zrenner, acreditando que “toda exposição é um pedido, é uma questão, é um percurso”, intencionou trazê-las ao centro da cidade; e, creio firmemente, este movimento acaba por endossar à curadoria a forma de um abre-alas, o que em si tem suas responsabilidades.
Este texto não se ocupa, a princípio, com a demanda de enunciar os trabalhos individuais das artistas, nem trata de avaliar o quanto a curadoria foi feliz em seu ofício, ou se o texto curatorial alinhou todos os trabalhos. Dito isto, é importante demonstrar o que foi apresentado no parágrafo anterior: com uma expografia direta e lúcida sobre a dimensão física, Gui aproveitou todo o pequeno espaço da galeria com os trabalhos que variaram entre pequeno e médio formato. Em geral, as abordagens e interlocução entre-obras se sustentaram como manifesto, denúncia, declaração do cotidiano, afeição e leitura de autoimagem das artistas. Em Rituais do Feminino, afirmando novos nomes (alguns já em estado de reconhecimento), a curadoria aparenta não considerar exclusivamente as questões técnicas ou formais, por assim dizer, para fechar a escolha dos trabalhos: é nítido que algumas das artistas ainda não sustentam a técnica a que se propõem; ou, partindo dos indícios de discurso, imagem e nome de obras, não obtêm clareza sobre o que querem dizer ou quanto dizem; ou deixam em questão a leitura objetiva da imagem — bi ou tridimensional —, passando mais perto de uma ilustração discursiva, do que da “expressão artística” que se viu em outros trabalhos na mesma sala.
O que se lê é que Zrenner acreditou mais no percurso das artistas, como aposta, do que necessariamente na individualidade daqueles trabalhos. Para isto, como se grande coisa, mas maior que este texto, estalo meus dedos em favor. Não se faz vital defesa ou justificativa sobre tais escolhas, até mesmo por eu não ter indicado trabalhos e trabalhos; a crença na consolidação da carreira dessas mulheres artistas é o que importou lá e importa aqui.
Em seu texto “Arte e Cidade”, de 1998, o crítico Nelson Brissac Peixoto propõe que “a arte é modo de habitar a cidade” e “a cidade significa um novo campo, um espaço mais amplo, instaurado por essa intervenção [urbana] e pelo objeto artístico” e, neste fluxo, justamente pela arte pública, haveria uma possibilidade de tensionamento das contraposições entre a ocupação de espaços públicos e de galerias. Ou, digo, a atuação da arte como formuladora e como forma de uma cidade tem parte de suas bases na ocupação de espaços públicos, na não-dependência de instituições da Arte. É aqui que… Rituais do Feminino e Mulheres Arquivadas (MA).
A exposição foi também ramificação de MA, que se estabelece em modo virtual com mais de 23 mil seguidores via Instagram, fundamentado sob práticas de pesquisa, mediação e curadoria de trabalhos de mulheres e pessoas não-binárias em Curitiba. Este que foi primariamente disseminado online, tem tomado forma física. Não apenas na Galeria Múltiplo, MA tem mostrado a potência de iniciativas que pensam a descentralização da validação artística e mobilizam um desmanche da polarização rua/museu. Obviamente, não é novo que pequenas galerias e ateliês aticem a produção artística; entretanto, o que se coloca aqui é louvor às práticas independentes que alimentam uma formulação de cidade plural e que pensam arte de maneira atuante.
Desde publicações independentes, como a que este texto seria publicado, a canais online de práticas de pesquisa em arte, como Mulheres Arquivadas, a formação do que é e como se faz arte em Curitiba está sendo posta. Há anos.
Como já disse em meu texto “Se não entender, pule o parágrafo”, acredito a Crítica como ferramenta de espalhamento da arte. Não poderia, então, escrever de outra maneira. O que é, atualmente, urgente à Crítica não passa pela análise crua sobre performance estética, mas por averiguar, difundir e dignificar a produção e pulsão artística que não é regularizada ou cabida.
Assim, talvez seja justo dizer que Rituais do Feminino vestiu da Crítica para dizer do feminino, da pluralidade de formações artísticas, da crença e devoção às mulheres que iniciam sua trajetória, da travestilidade, da incorporação do desejo e do não desejado, da requisição de notoriedade pelo ato artístico, do manifesto do que é da ordem do improrrogável: a ocupação da cena artística curitibana por quem, de fato, faz arte na cidade; ou, como gostaria Brissac, faz a cidade por sua arte.
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Links:
Imagens de Rituais do Feminino.
Instagram do projeto: @mulheresarquivadas
Instagram da galeria: @multiplo__