este texto foi publicado pela primeira vez em 10 de outubro de 2024.

 

É afirmativo que a Crítica de Arte carrega em seu corpo o gosto pelo fomento do pensamento poético e produção artística, além do papel de disseminação e manutenção da troca cultural e estética nas artes. Não obstante, Crítica em sua tradição é elitizada; veiculada por meios muito nichados, muitas vezes escrita de maneira que conversa apenas com quem consegue decodificar a fala específica. E assim o é porque as artes, já sabido, também tendem à posse de uma elite, seja econômica ou artística.

[Se não entender, pule o parágrafo.] Justamente, solta de um movimento unilateral, a Crítica tem em si a cena política em que se estabelece. Não existe Crítica de Arte descolada de uma ação artístico-política. E transpondo a modernidade das artes, agora tendo como solo rente aos pés a contemporaneidade e o desmanche que ela alastra entre linguagens e fazeres artísticos, e ainda, também, tendo agarrada ao calcanhar a realidade cultural subnutrida que se instaura no sul global, se faz clara a necessidade de uma Crítica que acesse outras camadas sociais, mesmo que assumindo caráter “meramente” informativo sobre as exposições e trabalhos que estão acontecendo no momento e espaço presentes. É possível que a atuação/linguagem própria que a Crítica cria, abra frestas entre o elitismo do pensamento em artes. Para exemplo, ainda que eu mesmo, neste texto, recorra a orações longas ou poéticas, também posso utilizar da simplicidade da comunicação, sem que apenas quem se desdobra sobre a linguagem falada se sinta sabedor. Por isto o aviso: “se não entender, pule o parágrafo.” A Crítica tem autoridade suficiente para se apropriar da escrita e dos métodos de interpretação, como também para se desfazer deles. Talvez ela seja o meio mais democrático, se existe, de acesso às artes.

Tirando pela cena curitibana, em que não há periódicos críticos disseminados sequer dentro do pequeno núcleo artístico, como se pensa a construção de "cena de arte"? Este, creio, é também papel da Crítica: fixar no tempo, ajuntar, sobrepor, expandir, atrelar, solidificar ainda mais a produção em artes e abrir espaços para artistas. Digo sobre estabilizar novos artistas no que chamamos “Mercado de Arte”: são necessárias mecânicas de acesso e legitimação para tais, que não caiam nos arames do Mercado de Arte Formal: se no início afirmo que as artes tendem às elites, é em alguma instância também pela insistência dos artistas em se legitimar como profissionais e pertencentes ao Mercado, por exemplo, através da precificação elevada de seus trabalhos logo no início da carreira ou modificação de motivos de produção. Mecânicas de acesso são importantes e artistas assimilam isto naturalmente ao seu fazer. [O Mercado também assimila.]

Dada essa necessidade de pertencimento, aí cumpre a Crítica mais uma de suas possíveis facetas. Esta é a potência. Introduzir e disseminar arte no cotidiano, formal ou informalmente, desdobrando em formalismos ou não, pela escrita em periódicos ou vídeos rápidos “meramente” informativos, é política de trabalho. E, neste caso, Crítica de Arte é ateliê aberto.

Para fim, se o texto crítico não se faz assimilável a tal leitor, que se pule o trecho. Isto realmente só importa como devolutiva a quem escreve, para validação de sua intenção de recepção. E quando a Crítica não acessa quem o crítico de arte deseja acessar, talvez seja por este “ateliê aberto” carecer de outras linguagens para fazer sentido na contemporaneidade — ou, ao menos, para outros públicos, na intenção de assentar a arte à mesa dos que vieram dos mesmo lugares que nós, não para engordar quem sempre determinou qual arte é Arte e qual é migalha.