este texto foi publicado pela primeira vez em 12 de outubro de 2024.

Em texto plotado na parede de pé-de-escada do último andar do SESC Paço da Liberdade, Alexia Christinny, curadora da exposição [tudo que cabe] — que aconteceu entre 06 de junho e 03 de agosto de 2024 —, inicia: "quantas conexões podem existir em um espaço?". A curadora justifica sua recusa a "um único fluxo narrativo", linear, por entender os trabalhos propostos como multifacetados, liberados de um viés conceitual unilateral; isto daria conta de ecoar a "realidade fragmentada de ideologias falidas", juntada pela relação afetiva que os integrantes do projeto trocaram e incorporaram ao processo de trabalho — mais uma vez o afeto como suporte.
[tudo que cabe] se trata do resultado de uma residência artística baseada no espaço do SESC Paço da Liberdade, com duração de "quase 10 meses" — já até aguardada todo ano. na edição 2023/24 do projeto, que é direcionado à experimentação em artes por artistas emergentes, temos como selecionados os artistas Jacqueline Cohen, Luan Linkoski, Luísa Covolan, Nicole Christine, Noah Mancini, Pat Mattos, Pedro Canela, Sandy Mara e Tatiane Oleinik; e como curadora, já mencionada, Alexia.
É clara a intenção do texto curatorial em abrir ao público a equação. Aí temos [pertencimento (incógnitas entre as narrativas individuais dos artistas + afetividade)] ÷ (expografia × narrativa curatorial) = [tudo que cabe] — menos ou mais algumas outras coisas que ficam no breu.
Segue:

Tentando mais compreender do que solucionar esta que se propõe a ser uma exposição-equação decifrada em parceria com os espectadores, vamos começar pelas "(incógnitas entre as narrativas individuais dos artistas + afetividade) x pertencimento": retomando, Alexia Christinny afirma a distância conceitual entre os trabalhos como potência narrativa e nega um fluxo linear, a não ser por "uma questão comum" (o pertencimento); mas qual distância? Esticando a linha dada pela curadora, as razões inerentes ao pertencimento ("como, onde, quanto pertencemos?") já não são suficientes para assentar o terreno às narrativas de cada trabalho? Se são, qual o temor em afirmar isto como viés conceitual já de início? Se não, em que momento encontra-se elo entre o todo? Ou existe necessidade de unificar narrativas de uma residência/exposição coletiva? O elo se basta pelo, já de casa, afeto?
Quando postos próximos, claramente todos os trabalhos de [tudo que cabe] transpassam a habitação como ponto-cruzo. Desde os títulos, legendas expandidas e, claro, desdobramentos conceituais/materiais: casa, rua, esfera privada, paisagem mental, construção material do hábito, espaço público político, aproximação do doméstico e comum ao, veja, afetivo. Não é necessária justificava maior. Esta exposição é sobre dinâmicas e mecânicas de pertencimento. Se assim, então excedem alguns traços da primeira parte da equação: parece existir um ímpeto por vigilância sobre o que escapa do controle narrativo — traço recorrente em exposições coletivas de artistas e curadores emergentes; aí o afeto como essa contra-camada que faria saltar humanidade, acesso, entrosamento entre artistas/trabalhos/expectadores.
[No fim, os espaços "vazios" do salão são lançados como vínculo
entre os trabalhos, amarrando espectador e suas percepções
como peça que completa a equação. no entanto,
não é como se isto já não fosse um dado de toda exposição em artes.]
Apesar de questões que gostaria de abordar em texto futuro sobre o assunto, existe, em maneiras, uma coragem em se pôr artista-curadora em um projeto dessa resolução [se tratando do que é a cena das artes em Curitiba e editais possíveis aqui]; isto é mecânica de pertencimento. Já dinâmica, é mais como abdicar do controle total de maneira consciente, não como justificativa conceitual. Talvez haja muito a se entender sobre o que é mera vaidade imposta por um fluxo institucional e formalista ou o que é inerrantemente base para a mostragem das artes [vale lembrar: arte é errante].
Agora sobre a segunda parte da equação, "expografia × narrativa curatorial", existe respiro! A beleza que pode ser montar exposições no Paço da Liberdade: o salão é amplo, apenas 01 sala expositiva reclusa, basicamente 01 parede-divisória, pé-direito alto, naturalmente fluido — o que não basta para bons projetos expográficos. Felizmente, o caso de [tudo que cabe] é de bom entendimento sobre o espaço possível, forma tal que a expografia abre espaço à visão para intercruzar alguns dos trabalhos ou para relampejar aqui e ali partes de um mesmo; a exposição, ou melhor, o trabalho não morre em si, seja por continuidade no trabalho ao lado ou por quebra de narrativa, proposital ou não. Aqui a justificativa afetiva talvez faria algum sentido, uma vez que os discursos individuais cerram-se a tangente para abrir fresta à contaminação do outro. Não o afeto pelo hábito da aproximação rotineira na produção em conjunto, porém a liberação para que tanto o que faz parte, como o que se distancia em existência, seja compreendido como possibilidade de sobreposição.
[tudo que cabe] não é asséptica nem opaca.
isto merece negrito e itálico numa publicação.
Por fim, pós sinal de igual em nossa equação, entre o que está no claro e no breu, não cabe incógnita versada em números reais. existe desejo, ímpeto, trabalho e deslocamento maiores que quaisquer "soluções". isto é que cabe ser mencionado :: a riqueza em experimentação que nosso presente objeto de discussão proporcionou em 2024! é real que se faz artistas e curadores em Curitiba.
[tqc] :: {C}

- texto de parede por Alexia Christinny
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Instagram da exposição: @tudoquecabe.expo